Aqui não há nada além da verdade das palavras escritas sob o céu noturno. É um mundo sem fronteiras ou limites. Não há bom senso, bons costumes, pratos feitos, receitas para felicidade de ninguém, versos de amor ou similares. Aqui há quem escreve, quem lê e esse intervalo que rola entre os dois... fora isso, nosso mundo. Silêncio e som. Nossa Noite Nua, nada mais...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Um Poema para Sedrick

"ONTEM, FURASTE-ME OS OLHOS.

OLHASTE-ME COM OS TEUS PUNHAIS ETÍLICOS."



                                                          Ana Isabel Rocha Macedo




Foi bem assim....... (Estela Luz da Manhã)




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O visgo que me prendeu...

                                                                                                                                        (por Estela Luz da Manhã)

Durante vários dias eu estive naquela padaria na esperança de vê-lo novamente. Minha prima já não aguentava mais. Eu implorava para que ela fosse comigo e ela, como um fiel escudeiro, atendia ao meu pedido. Embora ele não estivesse no local, havia algo dele ali. Não sei dizer o quê. Alucinação minha? Talvez. Eu olhava para aquele assento no balcão e me dava um frio no estômago. Tipo borboletas voando dentro da gente. Sabe como é?

Naquele dia frio já estávamos lá há quase quarenta minutos e nada.

Vamos embora, prima. Por favor! Esqueça, vai ver ele nem mora por aqui! Vai ver nunca mais ele volta. Deixe isso pra lá. – Disse-me a Julia.

Para minha felicidade, o destino deu bolas ao pessimismo dela  e imediatamente fez questão de me presentear. Como num filme, ele entrou lentamente com seu sobretudo preto e seu andar inconfundível. Fui tomada por uma alegria estonteante. O que habitava em mim naquele instante, ao vê-lo, pode até ser interpretado como qualquer reação adolescente em estado de paixonite aguda. Mas hoje eu sei, era muito mais. Brotava-me um sorriso de dentro das minhas entranhas. Subiu um fogo dos meus mais íntimos recônditos. Ele passou bem em frente a nós, deixando seus rastro de seu perfume avassalador que eu nunca viria a descobrir qual era. Um, de seus tantos mistérios.... À medida que tudo acontecia, eu sentia os bicos dos meus seios marcar a blusa de seda. Meu Deus!!!! Que loucura! Eu me lembro de cada detalhe. Meu coração resolveu pular carnaval e queria sair do peito.

E agora!!??? E agora!!!??? O que eu faço? – Perguntei para minha prima.

Sei lá!!! Fica olhando pra ele e dá um sorriso – Foi a sugestão dela.

Ele se aproximou no balcão e se sentou no mesmo local. O atendente, reconhecendo-o, sorriu e deu bom dia. Trouxe-lhe a mesma bebida. Ele colocou os cotovelos no balcão e ficou a olhar para a rua, com seus olhos fixos em um ponto qualquer que parecia muito longe dali.

Eu não sabia o que fazer. Não fazia ideia. Estava em uma espécie de êxtase. Parece exagero. Se alguém estivesse me relatando isso, eu realmente acharia exagero. Mas, apenas as mulheres que já passaram por isso sabem que isso é realmente assim. Um arrebatamento...

Fora de mim, movida por um instinto talvez, levantei-me. Fui até o caixa e pedi caneta e papel. Aproximei-me dele pelo lado direito, atravessando a visão dele. Ele continuou a viajar em sua olhação para a rua, sem me perceber. Sentei-me ao lado.

Sedrick??? – Falei, tentando chamar-lhe a atenção.

Para minha surpresa e constrangimento, ele nem respondeu, nem desviou o olhar do seu lugar qualquer.

Com licença, você é o Sedrick? – Tentei novamente.

Sem olhar para mim, ele tirou de um bolso um cigarro. Do outro, um Zippo. Acendeu. Deu uma tragada intensa e após brincar com a fumaça, lançou-me aquele olhar de lince. Após alguns instantes de silêncio, que duraram uma eternidade, ele disse:

Sim. Sou eu mesmo... E você? ( pausa...) Quem é?

Estela – Respondi com um sorriso fácil. Você pode escreve alguma coisa pra mim?

Movendo apenas os olhos, ele mirou o papel. Voltou-se para mim logo após.

- O que você quer que eu escreva?

- Qualquer coisa... - Disse-lhe, agora com um ar de timidez.

Ele delicadamente tirou o papel e a caneta de minhas mãos. Repousou o cigarro na beira do balcão e passou a me olhar de uma maneira diferente. Pequenos movimentos do seu globo ocular me fazia crer que ele, o Sedrick, estava olhando meus cabelos, meus olhos, os quatro cantos do rosto e, finalmente, minha boca. Dei-lhe um de meus sorrisos mais sinceros.

Foi aí que ele escreveu:

“Estela, luz da manhã.”


Dobrou o papel, colocou-o dentro da minha blusa e simplesmente saiu caminhando com a elegância inequívoca de um dândi...

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Sedrick, era o nome dele na manhã de domingo.

                                                                                                                    (Por Estela Luz da Manhã)

Eu tinha dezessete quando me mudei para São Paulo. O que havia na cabeça de uma menina do interior que acabara de chegar na metrópole, além do sonho de ser modelo? Havia mais sonhos... Muitos sonhos. Tudo ali me parecia gigantesco. Muito diferente da rotina de minha pequena e pacata Arco Íris (SP), onde todo mundo literalmente se conhece. A capital muitas vezes era algo assustador.
Fui morar na casa da tia Aurora. Época de férias, minhas primas me levavam para conhecer um pouco da cidade grande. Era um encantamento sem fim. Um misto de deslumbramento e pavor. As pessoas iam e vinha numa velocidade que eu não estava acostumada. Elas não andavam, corriam! Era muito estranho, a princípio. Os ônibus lotados, o metrô, que mais pareceria um grande formigueiro, a imponência da Av. Paulista... nossa!!!! Foi por alí que eu o vi de vez primeira...

Era um domingo de manhã. Estávamos no vão do MASP, eu, a Júlia, minha prima, e a Carol, melhor amiga da Júlia. Elas falavam sobre os paqueras, as tretas da escola, etc. O tempo estava muito agradável e me lembro até hoje do sol brando e da brisa fresca que assanhava meus cabelos naquele dia tão bonito.

- Meninas, vamos beber um suco? Tem uma padaria bem bacana aqui perto. – Disse-nos a Júlia.

Lá fomos nós. Era uma das travessas da Paulista. O local bem movimentado. Parece que os paulistanos não tomam café em casa. Adoram uma padaria. As cadeiras, ao redor do balcão ao centro, estavam todas ocupadas. Copos de café com leite transitavam por todos os lados. Havia também um grande tráfego de pães com mortadela. Sentamos no mesa ao lado, tão logo desocupou. Pedimos nosso lanche e ficamos rindo de trivialidades. Foi quando eu vi aquele homem entrar no recinto. Sua chegada não chamou apenas a minha atenção. De repente, muitos foram os olhares que o seguiram. Ele sentou em um dos bancos altos junto ao balcão, de costas para nós. Foi gentilmente cumprimentado pelo atendente, que demonstrou um ar de intimidade, sugerindo que se tratava de um cliente conhecido. Não entendi muito bem o nome pelo qual ele foi cumprimentado com um “bom dia”. Havia um perfume que ficou impregnado no ar quando ele passou ao meu lado. Perfume que nunca mais sairia de minha memória olfativa, de meu corpo todo que um dia seria dele. Seus cabelos pretos, lisos, a altura do ombro, brilhavam na manhã dominical. Fiquei a observá-lo de canto de olho.

- Hummm. Gostou, né safadinha. Essas menininhas do interior são um perigo! – Brincou a Carol, com um riso nos lábios.

-Paaaara! – Disse-lhe, com uma vergonha disfarçada.

Chamou-me a atenção o fato de ele parecer não ter feito qualquer pedido. Entretanto, o atendente, demonstrando já saber o desejo do cliente, trouxe-lhe uma bebida. Parecia chocolate quente. (Depois eu viria a saber tratava-se de chocolate quente com conhaque importado). Ele, que estava de costas, virou o corpo assim meio que de lado. Foi quando pude notar que ele escrevia alguma coisa num papel amassado. Eu simplesmente não conseguia tirar os olhos dele. Não sabia o porquê. Dividia a atenção entre as meninas e ele. Na verdade, elas estavam conversando e eu fingindo que estava participando do papo. Mas, meus sentidos  estavam todos voltados para ele. Foi quando uma mulher de uns 40 anos se aproximou com um livro na mão:


- Sedrick?!

- Sim? – Respondeu ele simpaticamente.

- Pode me dar um autógrafo?

- Sim, claro!

Sedrick, era o nome dele... Um nome incomum... Que tal qual o perfume, ficaria para sempre registrado em mim....



Estela Luz da Manhã

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Qual o caminho a seguir?

                                                                                                                (Por Estela Luz da Manhã)


Sinto-me zonza, atordoada. Não sei qual o rumo devo seguir. Você pode me ouvir, Yuri?????? Por que fez isso comigo????

.....


Tenho o dever de honrar cada linha dessa sua saga... Mas não foi justo você fazer isso comigo... Não sou capaz.Talvez tenha sido essa a sua mais cruel punição.... :(  :(  :(

Certamente, foi...

Sinto-me perdida dentro da tua Noite Nua...


Estela Luz da Manhã



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Um pedido do Sedrick

Olá, leitores do “Noite Nua”. Meu nome é Estela... Pode parecer um pouco estranho, mas o que não é nesse universo Sedrickiano? Há mais de uma semana estou vivendo um grande dilema: Entrar ou não entrar nesse espaço? Primeiramente por que seria muita ousadia de minha parte. Algo que nunca imaginei na vida. Aliás, está sendo. Segundo, Yuri me deixa transtornada e me surpreende desde o dia em que o conheci. Sei que está confuso. Eu estou mais ainda. Para minha total surpresa recebi um email, que o transcrevo abaixo. Ele esclarece um pouco o motivo de eu estar aqui:


de: Yuri J. Sedrick (yurijsedrick@gmail.com)
para: Estela (estela_luz1986@gmail.com)

data: 23 de janeiro de 2017, 02:17

assunto: Um pedido

Oi, Estela.

Não me recordo mais a última vez que nos vimos, ou nos falamos. Lembro-me de quase todas as outras vezes, mas da última... não! Eu bem entendo o motivo dessa amnésia... mas isso não vem ao caso. Vim te fazer um pedido. Estou partindo. Não me pergunte para onde. Não vou dizer. Não sei quando volto ou se volto. Estou me desconectando do mundo virtual. Talvez, desconectando de todos os mundos. Não importa. Deixo-lhe como "herança" de nós dois, o que de mais precioso eu tive na vida, além de você:  A Noite Nua!!!

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Yuri J. Sedrick


Eu nem sei o que pensar... nem o que fazer...  tudo é transtorno em mim.
Estou sem chão. Totalmente abalada.


Estela

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Espelho

                Hoje Yuri, o Sedrick, acordou bem cedo ( o que é raro). Significa que dormiu pouco (o que de certa forma é bem comum). Nu, caminhou até a cozinha. Olhou fixamente para o imã da Janis Joplin na porta da geladeira, antes de abri-la. Pegou a “long neck” que, por estar na parte de baixo, parecia não estar tão gelada. Mas, era bem manhã. Não fazia calor. Tudo bem. Quebrou o gosto de guarda-chuva da boca com essa cerveja mesmo. Foi até a janela. “Porra, Yuri... sabe que você é bem previsível? ”. A cidade acorda lentamente e vai tomando seu ritmo de loucura. Lá embaixo o Bodão também acordou cedo. Já está na defesa de seu pão com manteiga... e assim a vida amanhece na capital. (Se você chegou agora na Noite Nua e não conhece o Bodão... hum... precisa voltar no tempo... vai clicando ao contrário...)

                Garrafa vazia jogada no cesto de lixo, ele vai ao banheiro cuidar dos dentes. Creme dental na escova. Escova nos dentes. Cara no espelho. Não é seu rosto que ele ali vê refletido. Isso para ele é foda. Ele fixa os olhos nos olhos outros enquanto seus dentes sofrem com a esfregação cada vez mais forte. A testa frange. A respiração aumenta. A pressão sobe. Não a arterial. É a cena que vai ficando tensa. Sua gengiva começa a sangrar e a espuma branca que escorre pelos cantos da boca agora tem fios de escarlate. Ele cospe um punhado de pasta e sangue, esse redemoinho de saliva e dor. Cabeça baixa, olhos na pia branca. Está cansado. Está puto. Está confuso. Mas, não está perdido... Ele nunca se perde... Lentamente, seu pescoço move sua raiva para cima. De dentro do espelho um sorriso sacana dispara contra ele. “Filho da Puta”, ele grita!!! Tomando por uma fúria incontrolável ele está prestes a quebrar aquela merda com um soco. Os punhos são cerrados e a mente comanda os músculos para a catarse final. Mão direita e futuros cacos de um rosto que não é o dele irão se colidir e promover o exorcismo de todos os demônios de uma vez por todas... No último milésimo de segundo antes da explosão ele se contém. Aquilo não vale a passibilidade de uma fratura... Aliás, aquilo não vale uma unha quebrada! Não é assim que se faz com os vermes. Enquanto reflete sobre o reflexo que definitivamente não é o seu, o celular recebe uma mensagem pelo whats app... É Estela!!!!! Kkkkkkkkkk.. Ele ri. É mesmo engraçado isso. A vida é mesma uma roda de Samsara. Yuri mostra a mensagem para o espelho. O sorriso sacana que antes friamente apenas zombava, vai se transformando em uma outra coisa sem graça e desesperada. É assim que as coisas são, ao final das contas.


                Não haverá espelho quebrado. Ele está condenado a permanecer ali. A viver o resto de sua medíocre vida a observar do esgoto de seus dias o Sedrick passear pela sua majestosa Noite Nua. 


Yuri J. Sedrick


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Um jogo na Noite Nua

Duas e meia da manhã e o Yuri olha os alguns poucos carros projetando no asfalto suas luzes de farol. A cidade assim vista do alto, no certo silêncio do tempo, é propicia a mais um gole. Na mesa ao lado o laptop mostra uma página de editor de textos aberta. Não há nada escrito. Apenas um cursor piscando a clamar por uma letra qualquer. Quantas palavras há na mente de um homem em estado de desencanto??? Ele senta e fixa os olhos à tela. Os dedos planam sobre o teclado num vôo rasante. Vão e vêm. O tato sente a máquina que responde ao toque com breves estalidos das teclas  ao roçar das mãos dele. Estela reagia da mesma maneira ao toque do único homem que ela amara de verdade. Estela está distante e ele não vai escrever sobre amor!!!! Não!!! 

Silêncio total... tic tac tic tac... Um relógio na parede... tic tac tic tac... Aquela sirene de ambulância bem ao fundo... tic tac tic tac...  Que merda... Ele vai escrever sobre o amor... 

Mais um gole seria o suficiente para que surgisse a primeira palavra: "Porra!". Escreveu e ficou olhando-a fixamente por um tempo. Acendeu um. Fez fumaça. Com o cigarro entre os dedos, apoiou o cotovelo direito sobre a mesa. Passou os dedos da mão esquerda entre os seus fios de cabelos. "Porra! O amor é uma porra." Pronto! La ia o texto em sua estrada sinuosa. Eu realmente gostaria de poupá-lo disso. Sei qual o destino desse trem. Mas não há como impedir essa catarse extrema., visceral...  É assim que ele é.  É assim que ele faz, o Sedrick. Compulsivamente, ele desenrola as letras em palavras e em frases. Vê-se um frenesi. Um homem em chamas a arder na Noite Nua. Ele escreve e fuma e bebe e grita e se incendeia. Seu suor já escorre pela testa e já molha os seus cabelos dele. Quantas vezes as mulheres que ele amou viram essa cena debaixo daquele corpo que a elas proporcionou os mais intensos dos prazeres da carnais... Muitas foram essas mulheres. Dessas, amou verdadeiramente algumas poucas. "O amor é uma sentença. É a véspera da dor!",  escreveu ele imediatamente antes de se levantar. Foi ao banheiro e ao abrir a tampa do vaso viu o retrato de si mesmo. Mijou sobre sua silhueta. Meteu a cabeça debaixo do chuveiro. A água estava quente. O vapor embaçou o banheiro todo. Já sentado ao chão, parecia estar sob um véu de cachoeira de águas térmicas. Levou o cigarro à boca como se ainda estivesse acesso. Tentou dar uma tragada. Tirou-o dos lábios e testemunhou a ação da água em sua desintegração. O amor é assim. Da mesma forma. O que antes era brasa, desintegra-se num vacilo. Acho que ele tem razão. "O amor é uma porra!". No final do jogo sente-se um gosto amargo na boca. Ele conhecia bem essa sensação. Um espécie de derrota inevitável, algo assim.

De algum apartamento sempre vem uma música para ilustrar a coisa. Você, leitor, poderá até achar que é armação. Estratégia de um escritor barato para terminar mais um conto. Mas não é, acredite! No prédio do Sedrick, em algum lugar submergido na madrugada a dentro, saindo mesmo de dentro do texto ou ainda do próprio homem (quem sabe?),  ouvia-se aquela linda e maldita canção da Amy...

Yuri J. Sedrick

Aperte o play do vídeo abaixo e tome um gole comigo...


(Letra e tradução logo abaixo do Vídeo)


Love Is a Losing Game

For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game
Why do I wish I never played
Oh, what a mess we made
And now the final frame
Love is a losing game
Played out by the band
Love is a losing hand
More than I could stand
Love is a losing hand
Self professed, profound
Till the chips were down
Know you're a gambling man
Love is a losing hand
Though I'm rather blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned
Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game

O Amor É Um Jogo de Azar

Pra você eu fui uma chama
O amor é um jogo de azar
Cinco andares se incendiaram quando você me chegou
O amor é um jogo de azar
Por que eu desejo nunca ter jogado?
Oh, que estrago nós fizemos
E agora o lance final
O amor é um jogo de azar
Em jogo na mesa
O amor é uma aposta perdida
Acima do que eu poderia cobrir
O amor é uma aposta perdida
Auto-declarado profundo
Até as fichas se acabaram
Sabendo que você é um apostador
O amor é uma aposta perdida
Apesar de estar bastante cega
O amor é um destino certo
Lembranças desfiguram minha mente
O amor é um destino certo
Acima de fúteis probabilidades
Ridicularizado pelos deuses
E agora o lance final
O amor é um jogo de azar

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Flores e Merdas

É setembro, não é?

A primavera, sem qualquer dúvida, é a estação mais bela do ano. Tem o poder de fazer renascerem certas coisas. Que bom! Apesar de nem tudo ser flores, impossível não perceber que esse movimento deixa a vida mais colorida. Impossível para um homem tão intensamente sensível como ele:  Sedrick, o sobrevivente!  Capaz de  silenciar-se em seu mais profundo estado de crocodilo durante a seca devastadora, mergulhado em sua própria lama para sobreviver. Viver é sinônimo de resistir... Mas, lá fora pétalas novas mostram seus sorrisos de criança. É preciso assuntá-las, antes que caiam novamente ao balançar das estações.

Quantas almas podem ser curadas pelo silêncio? Talvez nenhuma. Sei lá. Nem todas as respostas são encontradas na Noite Nua. Digo isso com muito pesar. Seria mais simples. Seria mais fácil. Prazeroso. Mesmo um guerreiro precisa de descanso, do silêncio do não tilintar das espadas. A noite Nua.... a maior de todas as redenções... o maior de todos os prazeres... a mais fascinantes de todas as cavernas... a mais sedutora de todas as viagens... a mais selvagem de todas as felinas... um porto, um caminho, um mar cujas variáveis todas se curvam ao seu comando dele. E assim, Yuri segue a sua trajetória sem se importar com o destino. Ele não acredita nisso. Ele crê no caminhar, nas estrelas, no manto escuro que o protege de todos e (principalmente)  de si mesmo.

Em algum momento da madruga ele de sua janela olha o mundo. São as mesmas luzes de sempre. São as mesmas sirenes a cruzar o sono de muitos. A maioria dorme. Ele, não. Há dois cigarros sobre a mesa do canto da sala. Acende um enquanto caminha passos lentos. “Fumar é uma merda”, ele pensa. “Refrigerante, também”. O homem e suas merdas. Todos precisamos delas. Uns mais, outros menos. Ninguém é totalmente limpo. “O silêncio é uma merda”. (Também acho!) “Merda necessária”. Merda merda merda merda merda merda merda merda merda e merda! Prazeres de merda! Freud é foda...
Na cafeteira, uma capsula de café tipo “extra forte”. Alguns segundos depois, o Sedrick de volta à sua janela segura sua xícara personalizada. Seus olhos atentos quase não piscam. Sua alma inquieta quase não vibra. Felino, ele apenas está!
(...)

 “Estar” é um verbo poderoso... Quem tiver o entendimento, que esteja também...


Yuri J. Sedrick


sábado, 30 de julho de 2016

Um Silêncio na Noite Nua

O silêncio não existe. Sempre há alguma dor escondida em frequências que não são percebidas. São notas obscuras. Ora altas demais, ora profundamente graves. A noite tanto revela quanto esconde. É nesse universo que ele permanece vivo. É sua forma. É seu conteúdo. Sua cela abençoada. Dessas que depois de décadas de torturas viram museus. Esses poucos metros quadrados, cujas reluzentes tintas das paredes escondem rupestres gritos de horror.  Mas, a cidade é grande e são muitos os cárceres. Qual  seria a linha de fronteira entre o amor e a indiferença?  (silêncio, silêncio, silêncio)
Quantos silêncios cabem em um homem Sedrick? Não importa. Por ora, só importa a lei imutável das coisas que (parecem) não mudar nunca. É (também) por isso que ele escreve na solidão de sua masmorra invisível.

Essas portas de hotel que se abrem automaticamente quando o Yuri passa, oferecem a quem testemunha essa passagem uma falsa percepção do poder que ele tem. Se for em câmera lenta então, perfeito! Mas é falsa, sim, essa percepção! O poder dele não advém de coisas fúteis. Portanto, esqueça essa cena. Ela não significa nada além de sua função de permitir que ele saia para a noite que a ele pertence. Entrou no táxi e não era São Paulo. Portanto, não era o Tony.  Entregou um cartão com um endereço ao motorista e lá vamos nós...

Era a sua primeira vez naquela cidade de ruas largas e praças com árvores frondosas. “Raízes profundas” – ele pensa. “Qual o movimento que faz com que certas árvores sejam tão altas e consigam captar os raios do sol de forma plena? E essas outras periféricas, desproporcionalmente menores, que vivem às sombras, cujo destino é permanecer à espera da noite, onde todos os gatos são pardos?”.  As luzes passam assustadas e ele não conclui o seu pensamento. Pensamentos inconclusos são interessantes e bem comum em sua odisseia noturna. Portanto, whatever.

- “Pronto, senhor. Chegamos!”

Yuri se deu conta que durante o percurso o taxista, fazendo-se simpático, falava sobre a cidade e seus pontos turísticos. Ele se lembra de ter interagido com expressões que denotavam interesse e atenção ao seu interlocutor. Essa lembrança não o deixou culpado. Tirou uma nota do bolso, sem perguntar o preço da corrida. Pela expressão de surpresa e sorriso do Enoque ao ouvir o Sedrick dizer “fica com o troco”, suponho que fora mais que o suficiente.

- “Boa noite, senhor! Seja bem vindo! O senhor gostaria de algum lugar específico?” – Era a Sheila recebendo-o, enquanto ele olhava para o nome dela escrito no crachá.

- “Olá, Sheyla. Boa noite...Obrigado. Eu estou procurando... o poeta... você o viu?”

- “Desculpe senhor, como?”

- “Aquela mesa ali serve...” – Sinalizando discretamente com seus olhos de flecha.

- “Alí, onde está sentado aquele...”

- “Sim. Lá mesmo!” – Disse rapidamente interrompendo a moça.

Passos de Sedrick caminham sobre o piso de madeira. Havia algo naquele andar que despertava a atenção das mulheres e provocava um certo desconforto nos homens. Ele contorna a mesa e sem nada dizer senta-se à mesa, em frente ao seu destino. A Sheila fica ali, tipo sem entender nada. Eles não se cumprimentam... Eles nada dizem... Um garçom se aproxima da mesa e também ali permanece, aguardando discretamente o pedido. Eles nada pronunciam. Apenas se olham. O moço em frente ao Yuri, sem desviar o olhar, levanta a taça de vinho até a altura do queixo. Faz uma pausa. Bebe um gole em seguida. O casal da mesa ao lado percebe a cena e passa a olhar para os dois. Então temos a Sheila, o garçom, o casal da mesa ao lado e o gerente que se aproxima e que, discretamente, fala ao ouvido da recepcionista: “Tudo bem?”. Ela cochicha de volta... “Não sei... acho que sim...sei não” (há na Sheila um misto de confusão e fascínio). O pianista, subitamente atraído por algo que ele não poderia entender, para de tocar o seu piano. Na cozinha, o chef e seus assistentes são tomados por um sentimento absurdamente inexplicável e se olham, emocionados e confusos. As chamas dos fogões são apagadas e os alimentos entram e estado de espera de algo que eles não compreendem. Lá fora, o flanelinha estica o pescoço a espiar pela porta, deixando passar a chance de arrecadar mais moedas de alguns clientes que já se deslocam para seus carros. O ruído intenso das pessoas no bar começa a diminuir de volume como se alguém estivesse a girar lentamente um botão. Os outros garçons, os outros clientes, vão se calando e se virando para aquele canto esquerda do salão. O barman suspendem os seus drinks e os pedidos ficam no ar... tudo fica assim suspenso para ver os dois que se olham e de algum maneira, sem nada falar, se comunicam. Paira no ar um silêncio absurdamente silencioso.

É quando o moço, o tal poeta, deixa rolar uma única e gigantesca lágrima que mergulha dentro da taça de vinho, a qual, atingida, responde como um tsunami tinto seco inundando a alma de todos que assistem aquela cena insólita. Perdeu-se no “merlot” aquela gota salgada de sentimentos que nunca serão conhecidos por ninguém.

O pianista volta a tocar uma música qualquer.

Tudo volta a ser como sempre foi...


Yuri J. Sedrick



Valquiria

Recortes e lembranças...

 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A Saudade, a Doutora e o Albatroz

Ele resolveu se sentar no chão da cozinha. Fazia um certo calor e a frieza da cerâmica oferecia um frescor que lhe caía bem. Bebia leite. Gelado. Sem sal ou açúcar. Vez em quando ele curtia essas naturalidades. Olhava a caixa já vazia para conferir a data da validade. Restava ainda um dia. Tudo certo. Ele era mestre em se encontrar com a véspera das coisas a serem perdidas. “Tudo bem quando termina bem”, não é assim? - “Não, não é assim!”- ele pensa. A madrugada era agora apenas um copo vazio que transitava da mão direita para a esquerda e vice-versa. Coisas vazias cheiram a saudade e ele sabe disso. Deixar o copo pela metade teria sido uma alternativa fajuta que não resolveria nada... O vazio sempre acha um esconderijo. “Shit!” - ele chiava mentalmente enquanto experimentava em cada ponto cardeal de si a intensidade desse sentimento. “Saudade é algo feito feitiçaria! Eu sinto tristeza e sinto alegria. É uma coisa doida. É algo enviesado que pega de jeito e entorta o coração da gente” - ele reflete, quase que balbuciando.  Queria um chiclete... (não tem). Levantou-se e abriu a porta da geladeira a procura de algo que ele não recordava. Fechou-a, sem retirar nada de dentro. Voltou-se para o mesmo chão frio. Agora deitado, olhava o teto a espera de um não sei o quê. Aquela coisa que você sabe que não virá, mas insiste em ficar esperando. Saudade é desse jeito.

Os sons que vinham de fora do apartamento eram os mesmos sons noturnos de sempre. Vez em quando uma sirene cortava um resto de silêncio. Ele nunca sabia se era a polícia, o corpo de bombeiro, uma ambulância ou uma lembrança. Mas que diferença isso pode fazer para um homem deitado ao chão em estado de saudade? Nada... a menos que a ambulância fosse para ele. O celular rompeu a história. Estava vibrando sobre o canto da mesa. Com a vibração e a mesa escorregadia foi se aproximando do aparelho o abismo da cozinha. Quem quer que estivesse do outro lado da linha não fazia ideia que no próximo toque o aparelho iria despencar. Sedrick assistia curioso a tudo isso: o instante antes da queda, o seu durante e o seu depois. Foi assim que foi. O impacto sobre o chão atendeu a chamada. Ele ouviu uma voz distante...

- Alô... (silêncio)  Aaaalô  (mais silêncio)... Yuri??!!! Você tá aí?

Ela se calou, mas não finalizou a ligação. Ela sabia que ele estava ali. De alguma maneira ela sabia. Não me pergunte... não saberia explicar. E se soubesse, não diria. A única coisa que posso fazer é ficar aqui juntamente com você a imaginar o que aqueles não ditos significavam. Depois de algum não sei quanto tempo foi, ela desligou. Era a “doutora”, com sua mesmo metalizada voz de lagoa. Do lado de cá ele franzia levemente a testa na tentativa tosca de se lembrar quando fora a última vez que ela surgiu assim na madrugada. “Hrumm”... Levantou-se e foi ao banheiro. Enquanto mijava olhou-se no espelho. Ele queria falar alguma coisa, mas já era um pouco tarde para certos tempos verbais...
O Sedrick, a sirene lá fora, o som do mijo na água do vaso sanitário e a saudade. O mundo agora era esse pequeno grande conjunto.

Mesmo conhecendo-o como eu o conheço é difícil dizer com clareza sobre as coisas das quais ele sentia saudade naquele instante. Até que ponto algo lhe doía? Eu não sei dizer... Só sei que saudade dói! Arrisco falar que aquela era uma dor boa, tipo doce de caju ou leite gelado na véspera do azedume, bebido ao chão da cozinha... tipo assim.

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Quarenta e sete minutos depois:

No banco detrás do taxi ele segura um copo quadrado. Era algo forte, com gelo. Não sei dizer o que era. No volante o Tony sorria, enquanto colocava um som do Nat King Coe. Do alto era possível ver o carro deslizando pelas ruas do centro de São Paulo a procura de algo, alguma coisa que pudesse ser transformada em palavras. Era uma cena linda... luzes... sirenes... prédios... a chama de um fósforo acendendo um cigarro...

E assim se vai Yuri, o Sedrick, livre como um albatroz em vôo rasante sobre o asfalto da madrugada, em sua Noite Nua...


Yuri J. Sedrick

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Da Felicidade e suas Ressacas

Ser feliz para muitos é uma obrigação. Assim, nas estantes vão se acumulando livros de autoajuda. Para outros tantos, uma benção. E os bancos das igrejas vão se acumulando de esperança. Para ainda outros, a felicidade se tornar uma opção. Neste caso, a inteligência emocional  impulsiona o ser a um estado catalisador de energia positivas. Para o Sedrick... bem... aí é um pouco mais complexo. Seria uma questão de probabilidade? O resultado do acaso atuando sobre suas escolhas? O eterno movimento das coisas como elas são, cuja coincidência com os desejos dele gerariam essa tal felicidade? Na Noite Nua não há a intenção de oferecer respostas prontas a ninguém. Seria subestimar o poder de cada um de transformar símbolos em conhecimento. Portanto, refletir sobre o tema é uma das escolhas possíveis. Ofereço-lhe uma pausa para isso. Caso não queira se queimar no fogo das questões complexas, ignore-a e siga adiante...

(...)

(Vai ignorar mesmo? Que tal apenas ler o parágrafo novamente? De qualquer modo a escolha é sua...)

Já fazia não sei quantos dias que o Sedrick voltara e recebera a notícia caduca da morte do Dr. Oscar. O fato de ele ter sido generosamente incluído no testamento não surpreendeu ninguém. O velho nunca escondeu esse sentimento paterno. A princípio, o Júnior ficava puto da vida com isso. Natural até. O ciúme,  erva daninha que se prolifera facilmente na natureza humana, ainda segue gerando intrigas e tragédias todos os dias. Ocorre que, após um certo tempo de “convívio” com isso, o filho legítimo entendeu e aceitou a coisa numa boa. Até por que, se à primeira vista é fácil odiá-lo, após algumas conversas com o Yuri, o encantamento é um caminho muito fácil. O Júnior virou seu fã. Quando leu “O sorriso de uma estrela”, primeiro livro de Yuri J. Sedrick, já lançado em 03 países até então ( Brasil, Chile e Portugal), o garoto ficou em estado de êxtase e passou a olhar para o seu “rival” de forma amistosa. Foi esse sentimento que o fez ter a coragem de um dia, no escritório de seu pai, vendo o Sedrick ir até a copa atrás de um café, segui-lo e abordá-lo:

- Eu queria falar com você!
- Sim? – Respondeu ainda de costas.
- Queria falar sobre o seu livro!
- Eu não falo sobre ele – Respondeu já de frente, com a xícara  em direção à boca.
- Como não?!! Ele é fantástico! Eu queira saber...
- O livro já disse tudo o que eu teria pra dizer – Interrompeu bruscamente o garoto curioso.

Oscar Júnior foi tomado por um momento de ira. “Que cara chato, ignorante!”, pensou. Seu próximo impulso seria dar às coisas dizendo “fuck you, man!”. Seria... não tivesse percebido que, ao desviar o olhar para a janela, o Yuri não o fez no tempo certo. Ainda foi possível ver que o mar se fez presente nos olhos dele, quase transbordando as pálpebras, assim como uma ressaca inesperada que derruba os desavisados a passear pela calçada das praias imprevisíveis. O garoto precisou de um café. O que  parecia amargo, agora estava doce. Sedrick percebeu o lance todo. Ele sempre percebe. O Júnior continuava ali em um silêncio respeitoso. E isso foi o suficiente.

- Pode perguntar, garoto. O que você quer saber? – Olhando para a rua, encostado à janela.

O jovem sorriu um sorriso bom. Ele conseguira. E assim ficaram mais de uma hora na copa, conversando como dois velhos amigos que não se viam há anos. E assim eles passaram a se admirar e a se respeitar um ao outro.

O dinheiro nunca fora problema para Yuri. Não porque ele o tivesse com relativa folga, haja vista a pensão que o pai deixara para a viúva sua mãe e que naturalmente lhe servia. Na verdade, ele não dava outra importância ao dinheiro senão a importância que de fato ele tem. Comprar coisas úteis e inúteis. Com isso, as soluções eram simples. Se acabava a grana ele ia ao escritório e pegava um projeto. Dr. Oscar sempre tinha algo guardado para ele. Ele detestava aquilo, ao bem da verdade. Um talento que ele mesmo não valorizava. Mas, o velho sempre ao receber a coisa de volta, dizia entusiasmado: “Filho, você sempre me surpreende. Eu não teria feito melhor”. E depois ia mostrar a todos os outros do escritório, os quais ficavam putos de inveja e tentavam procurar por defeitos que não havia. Era assim. Sedrick sabia. Não se importava e tampouco permanecia ali para receber críticas ou elogios. Seu habitar natural era a Noite, onde quer que ela estivesse. Seu canteiro de obras continha livros, canetas, papéis, personagens, reticências, sentimentos e reflexões. Ele só queria caminhar e observar o mundo, traduzindo-o de acordo com suas convicções ou interrogações, conforme o caso. Nada muito além disso. 

Estava na hora de dar fim ao luto. Ele sentia. Ainda havia muita dor, mas lá fora a vida pulsava e o Sedrick sempre soube como as coisas funcionam. A qualquer momento poderia ser ele (ou qualquer um, ou eu, ou você mesmo que lê). Por que das coisas que a vida é, uma é esse caminhar rumo ao inevitável. "A vida sopra dentro de mim pânica feito a chama de um maçarico e pode subitamente cessar”, como diz o poema do Gullar. É assim que é.

Já era noite grande. O interfone toca. “Seu Sedrick, o Tony está aqui embaixo” Ele já está pronto. Abre a porta. Apaga a luz. Tranca a porta. Caminha pelo corredor com seu sobretudo novo sendo deslocado pelo ar. É quase uma capa. Aperta o botão redondo que se ilumina de verde e não é kriptonita (ufa!). O elevador sobe para buscá-lo... Lá fora, a Noite Nua ansiosa pulsa! Aqui só vemos duas portas que lentamente caminham uma em direção a outra, desfazendo a imagem do Sedrick que desaparece rumo ao térreo. Já embaixo, as mesmas portas se abrem, como num passe de mágica, fazendo renascer a imagem dele. Se eu fosse cineasta, seria uma cena de filme. Como apenas escrevo, lá se vai o Sedrick com seus passos firmes. Antes de entrar no táxi, olha para os lados, como quem reconhece um território. O Tony, sorriso nos lábios, segura a porta traseira direita já aberta. Ele entra.

E tudo está perfeito, outra vez.

Yuri J. Sedrick

sábado, 16 de julho de 2016

Simplesmente Beatriz

E seu eu disser que são 01:40 da manhã de um sábado qualquer e há um vulcão aqui em mim? E seu eu disser que a janela está fechada, pois que vem de lá um vento tão gelado que me trinca os sonhos? E seu eu disser que eu sinto medo? E seu eu disser que não sou nada disso? E seu eu disser que estou chorando, será que alguém iria acreditar? É foda... depois de 48 horas sem dormir a gente fica sentimental demais... Esse não é Sedrick... Antes que tudo desande, melhor apenas ouvir a música que toca... e beber outro...


"Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz ?

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida ?

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz?

Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida?

Sim, me leva para sempre Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Pra sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz?

Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida?"


Edulobo/Chico Buarque



sexta-feira, 15 de julho de 2016

Sorteio Livro Mia Couto

ATENÇÃO GANHADORA: NORMINHA! - Sorteio realizado em 03.08, às 20 h, pelo Periscope.

Estamos sorteando 01 exemplar do livro "O Último Vôo do Flamingo", de Mia Couto. Para participar bastam 03 ações:

1. RT("retuitar) o "tweet" da promoção no @Noitenua (Twitter)
2. Seguir o @Noitenua no Twitter
3. Ler e deixar o seu comentário em qualquer dos contos da Noite Nua: www.noitenua.blogspot.com.br

A promoção é válida de 14.07.2016 a 31.07.2016. O sorteio será realizado em 01.08.2016. O resultado será divulgado no Twitter e no blog da Noite Nua.
Participem!

terça-feira, 12 de julho de 2016

A Estrela Nua e a Janela


Eu poderia falar de seus cabelos, descrever as curvas de sua pele branca, delinear com palavras os seus pés ou ainda dar ao leitor uma ínfima noção do que seria aquele par de olhos. Olhos que grudaram no homem da noite nua como um visgo, criando um rasgo, um penhasco, um clarão no meio da mais profunda escuridão. Eu poderia sim trilhar esse caminho. Mas, não! Não vou por aí. É raso demais. Além do que, por respeito ao luto dele, devo-me calar, no que tange a essas questões. Sim, Estela é um assunto indigesto para ele. Entretanto, o que fazer, já que a narrativa tem que seguir? Aqui não há receitas, meu camarada. É sentir o que há para ser sentido...

Estela estava nua. Seu corpo pesava sobre divã na sala de estar (eu sempre me perguntei o porquê daquele divã!). Ela gostava de ali permanecer por um bom tempo. Era um móvel estilo moderno, com uma sinuosidade que acompanhava aquele corpo que de tão feminino parecia flutuar, em alto relevo. O ar condicionado, programado na modalidade “swing”, dava voltas pelo ambiente, roçando-lhe os seios que volta e meia se entumeciam naturalmente. Sua mão segurava uma taça. Não. Não era vinho... Era água. Cristalina. Pura. E ela olhava aquela transparência química e pensava em si. Como pensar em si sem pensar nele? Era algo indissociável. Impossível como separar ali, com suas mãos apenas, os elementos que formavam aquele líquido na taça e assim ofereciam aquela consistência transparentemente vital para a sobrevivência de toda a raça humana. Água. Simplesmente, água. Mas o quanto pode haver numa taça d´agua na mão de uma mulher dentro da Noite Nua?

Estela estava só. Ou quase. Objetos às vezes são companheiros da solidão. Ela, o divã e uma taça onde via refletido seu próprio rosto que não mostrava sorriso algum. E sua vida... e seus medos... e seus enganos... tudo ali. Se eu fosse um pintor, seria um quadro. Mas só sei escrever, então eu continuo contando. Ela deu um gole. Estava fria, gelada não. Bebeu devagar. Sentiu o líquido descer-lhe garganta abaixo. Não foi fácil. Havia um nó no meio do caminho. No meio do caminho havia um nó. Não era pedra não. Se assim fosse, ela a chutaria. Os nós são mais difíceis. Desatá-los não é tarefa fácil. Ela estava só. Mas, não era apenas isso. Sentia desejo. Desejo de mulher, sabe como é?

Estela deitada nua no divã foi tomada por um tesão desses tipo...  vento na cabeceira da pista de pouso de avião. De viés. Todo piloto teme. Sedrick o conhecia bem. Talvez fosse o único que realizasse aquele pouso com a suavidade e segurança. Mas não havia Sedrick. Não mais. Ventania era o que havia no corpo nu de mulher a queimar sobre um divã. Ela bebeu outro gole e lambeu os lábios como se fora o mais raro dos licores do fim do mundo. Sentia-se invadida por aquele estado de ser e de estar de fêmea e, como num filme, assistia a todo o seu passado de Yuri. Mas, mulher é diferente. É sim... Estela sentia o cheiro dele em sua pele, no divã, em todos os cantos. Havia uma certa umidade no ar e entre suas pernas. Havia um certo calor que lhe abria os poros das axilas e da pele do pescoço. Estela era assim, denunciava seu estado de querer pelo pescoço. Em chamas,  bebeu os goles todos um atrás do outro. Ela tinha sede. Levantou-se e abriu a porta da geladeira. Queria mais. Encheu o copo e bebeu com volúpia e estado de aridez. E deixou que a água escorresse pelos cantos da boca e fizesse um rio em seu corpo. Mas era pouco ainda. Jogou longe a taça que, pobrezinha, partiu-se em mil pedaços sem poder testemunhar Estela, com a jarra na mão, fazendo de seu corpo cachoeira. Deu as costas ao refrigerador sem se preocupar em fechar a porta. Eu nem sei dizer se havia música no local. Não era preciso. Havia um canto de sereia implícito no desespero de uma mulher que sabia que o amor estava a quilômetros de distância dali. Estela entrou para o quarto e já deitada na cama, chorou agarrando o primeiro travesseiro que encontrou pela frente. Virou para o lado da janela. O que estaria fazendo naquele instante o homem que tanto a amara e que para ela escrevera o livro que a acompanharia pelo resto da vida? Livro este que todas as suas amigas já haviam lido e do qual milhares de jovens retiravam citações para postagem em redes sociais. Ela sabia que não poderia escapar, mesmo tendo feito isso um dia.

E assim,  nua, entre lágrimas e desejos, mirando a janela, Estela adormeceu.

Em algum ponto da cidade, naquele mesmo instante, Yuri, o Sedrick, está encostado em um poste qualquer. Acende um cigarro... desses com aroma. Coloca uma das mãos no bolso e olha para o alto dos prédios ao seu redor.  Silenciosamente, anônimo, põe-se a pensar sobre as janelas que insistem em permanecerem abertas...


Yuri J. Sedrick

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Abriu os olhos e viu que horas eram...

Madrugada morrendo e ele acordando, num rompante. 05:30... Não é normal. Não foi normal. Sonho. Um quase pesadelo. Por todos os lados paira um silêncio obtusamente dilacerante. É muita solidão para um homem só. Ele apenas escuta o não barulho das coisas que teimam em se manterem caladas...


Yuri J. Sedrick

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A Fera, o Feio e a Ferida


Vodka nunca foi uma boa opção para ele. Talvez justamente por isso tenha feito essa escolha. Eu não diria que ele estivesse bêbado. Havia ainda alguma sobriedade emergindo do oceano etílico em que flutuava translúcido. Estava em casa. O andar é o décimo, todos já sabem. Não estava nu. Vestia ainda uma camisa branca, de puro algodão, manga comprida, aberta, obviamente toda amarrotada pela guerra de sensações que aquele corpo sentira nos últimos dias. Impregnada do cheiro dele, ela resistia bravamente em seu corpo...

No celular, ao chão, muitas ligações perdidas: A mãe, o Júnior, Tony, Rafaela, até mesmo a Estela ligou várias vezes. Acho que até eu tentei ligar. Sabe Maria Dolores? Aquela que mora em San Carlos, cidade do Uruguai? Ligou também... Assim como Valquíria, Raquel (a moça da loja de chocolates no aeroporto de Ilhéus), Augusto, o porteiro do prédio. Júlia, a prostituta do conto “O Redentor”, e quase todos os outros... quase todos... E mais! Alguns números desconhecidos constavam da lista de chamadas não atendidas. Pelo DDD e prefixos imagino que sejam do Pará, da Bahia, do Ceará... Até o Bodão perguntou por ele na portaria. Na Noite Nua é assim... Quando um sofre, todos sofrem, todos sentem.

Ocorre que naquela noite não havia tristeza em seu apartamento. Outros sentimentos, sim. Com a garrafa quase vazia na mão esquerda ele se jogou no sofá. Olhares cerrados, sua cabeça que antes pendia para um ou outro lado agora repousava sobre uma grande e macia almofada. Foi aí que ele ouviu... vindo de não se sabe onde... a música... longe... longe... foi ficando perto... quem estaria tocando àquela hora da madrugada quase fria? Ele, sentidos prejudicados, tentou aquietar-se para apenas ouvir... e ouvir... Alguém tocava “La campanella”, de Liszt!  Ahhhhhhh, quantas doces surpresas ainda hei de me deparar nessas narrativas sedrickianas? Silenciado pela vontade de captar cada nesga de emoção em forma de música, ele quase não respirava. Seus dedos se mexiam ao ritmo do som dos deuses (ou demônios, quem saberá?) e ele se sentiu num carrossel que girava... e girava... e girava... e criança ele sorria... sorria e sorria. E enquanto sorria ele lágrimas caiam de seus olhos de Yuri. E rios se faziam em suas faces e a noite se inundava de sentimentos tantos que eu nem sei mais como contar. Foi aí que ele o viu... ali em frente... na porta da sala de jantar... Parado. Imóvel. Olhos profundos a fitá-lo. Impávido. Como era linda a sua juba... Enegrecida nas pontas, gerava um contraste fascinante com o dourado das grandes mechas dianteiras. A luz decorativa projetava a sombra do leão na parede branca, dando-lhe a dimensão de um gigante. Sedrick ouvia Liszt e olhava atentamente para o felino. Enquanto abusava desses dois sentidos, sua mente navegava em mares revoltosos. Mas, não havia desespero. Havia o filme de sua vida passando em câmera lenta.

“Deus meu”-  digo eu!!!! - “Quem é esse leão na Noite Nua?”... “Por que queres me devorar se sou apenas eu a caminhar pelas minhas esquinas”... “O que sabes de mim, fera, que me olhas assim?”.

Yuri se levanta suavemente e vai em direção ao animal. Pés de Sedrick sobre o seu próprio assoalho. A garrafa ainda na mão. Passos. Passos. Ele estende a outra mão em direção do felino. Está quase a tocá-lo... e a música não para... e parece que está mais alta... e Estela, que talvez um dia irá ler esta passagem, sequer desconfia que nesse outro momento, esse aqui e agora, algo de natureza insólito acontece. Ao chegar a um centímetro de tocar seu dedo no focinho do leão, Yuri sente um frio lhe cortar a alma. De sua mão a garrafa dispara em direção ao chão. Ele abaixa a cabeça, recolhe os braços e treme... Levanta e cabeça e torna a olhar o leão imóvel. “Estou louco”? -  Ele se pergunta. E se sente feio... muito feio... uma feiura inominável... Num rompante, rasga a própria camisa e grita... grita e grita e grita como nunca ousou fazer. A música para. Ele ouve apenas a própria respiração ofegante. Não há mais leão. Apenas um homem de joelhos ao chão rodeado de cacos brancos de camisa que o vestira tanto. Ele se levanta e vai ao banheiro. No espelho procura a si mesmo. Há algo diferente, ele percebe. Passa as mãos pelos cabelos tentando se reencontrar. Não vê beleza em canto algum. Há uma ferida no peito, ele sabe.


Já na janela, minutos depois, ele olha os carros que passam com seus faróis a iluminar o caminho. Numa savana, do outro lado do mundo, é dia. Um dia comum. Do alto de um pequeno elevado, um leão de juba preta apenas observa as coisas. Ele não pode pensar, tampouco entender o que se passa na Noite Nua...

Yuri J. Sedrick



domingo, 3 de julho de 2016

Cadê você, Yuri?


Não o vi mais. Mas sei que está por perto. Sinto a sua presença. É estranho e difícil de dizer. Talvez hoje eu só tenha frases curtas. Sem virgulas. Não há história a ser contada. Como ele fugiu de mim? Não sou eu o escritor? O criador? Sensação estranha. Um vazio de doer o centro do umbigo. Que poder tenho eu? Sou desses que fazem perguntas demais... eu sei. Pode a dor da perda bater tão forte que mesmo uma personagem se esconda num (desen)canto qualquer? Não vai ter jeito. Precisarei de frases mais longas... É que hoje EU preciso falar... e vou me trair, pois também vou precisar de vírgulas, sim. Houve um tempo, bem distante, em que a tristeza era um combustível valioso. Mergulhado em sonetos de Augusto dos Anjos, nos contos de Poe, eu voava sobre as asas da melancolia! Coisas de um jovem escritor que adorava participar de concursos literários ( e até os ganhava, vem em quando). Bullshit! Apenas mais tarde é que entendi que o que vale mesmo é o VERBO!!! O ato de fazer as palavras ganharem vida!!! O instante da escrita!! O grito!!!! Diferentemente daqueles tempos de menino, hoje eu preciso de uma certa calmaria para que a Noite Nua brote com toda a sua intensidade! Mas, como fazê-lo quando estou triste? Quando não consigo vê-lo, senti-lo, escutá-lo? Ok...Ok...Tenhamos calma... Talvez ele esteja no apartamento dele... Décimo andar, deitado nu, no sofá da sala, cortinas abertas, à meia noite, lendo “Os Irmãos Karamazov”, com uma taça de vinho na mão esquerda? Haveria cena mais interessante do que o Sedrick e Dostoievsky bebendo juntos? Não... Não... No metrô... Na estação do metrô... sentado, sozinho... faz frio... os trens passam, mas ele não entra. Está esperando alguém? Está perdido? Não!!!!! Yuri nunca se perderia na Noite Nua... Talvez ele tenha ido a Belém do Pará e esteja aguardando alguns daqueles... não sei bem como se chamam.... “navios fluviais”.... desses que passam 12 horas navegando durante a noite e levam em seus decks redes e sonhos escorregando sobre o rio-rua, para as cidades ribeirinhas da Ilha de Marajó... Estaria ele em pé, numa daquelas cidades, observando policiais montados em búfalos fazendo a ronda? Sinto dores de cabeça... melhor parar... É provável que esteja em algum café. Em São Paulo mesmo. Quem sabe, fugindo de mim... ou de si... ou de ambos... fuck off...

Perdão, leitores da Noite Nua... deixei-me levar pelo lirismo sentimental dos que se sentem só e tristes. Que merda, Yuri! Onde é que você se meteu???!!!


Yuri J. Sedrick

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Sedrick, O Fagner e o Padre


Eu suponho que ele tenha passado a madrugada toda vagueando pela Noite Nua. Suponho mesmo, apenas... Não sou desses narradores que de tudo sabem. Isso é uma grande mentira! É certo para mim que o criador não conhece totalmente a sua criatura. Há um limite estabelecido. O tal do “livre arbítrio” vai definindo fronteiras. E mais: Onde repousam as personagens quando não passeiam na mente do autor ou não estão sob o olhar curioso de algum leitor? Cometendo seus pecados? Dormindo no reino das palavras? Seja o que for, fica para outro momento, pois o padre chegou:

- “Bom dia, filho. Está tudo bem?”

Sedrick sentado levanta suas sobrancelhas seguidas por seu par de olhos tão profundos. Olha para o sacerdote se aproximando placidamente. Nada responde e para o nada retorna seus olhos de Yuri, após longos dez segundos e meio. Em pé, o padre observa e pensa também por mais ou menos esse mesmo grão de tempo. Subitamente senta-se ao lado dele.

E assim ficam os dois sentados no banco da Catedral Metropolitana de São Paulo, ou, simplesmente, a “Igreja da Sé”. Havia silêncio e som. Havia alguém que precisava e alguém disposto a oferecer. Havia um silencioso pedido de socorro que o padre Zanone ouviu (ou sentiu...). Mas, ele nada disse. Ficou apenas ali, ao lado...

Eu nunca soube ao certo sobre as (des)crenças de Sedrick. Poucas vezes ele entrara numa igreja. Sempre as admirava, pelo lado de fora. Era assim... Em cada cidade por onde passava fazia questão de conhecer as igrejas, as catedrais. Interessava-lhe o projeto arquitetônico. Coisa meio óbvia, tratando-se dele, claro! No entanto, sua motivação não passava do concreto. Não se apegava a dogmas. Não esboçava qualquer tipo de religiosidade. Entranha-me vê-lo ali... Eram 10 da manhã. Ele chegara às oito. Mesma roupa do dia anterior, cabelo despenteado, olhos amargos. Eu acho que ele.... opa! Olha o padre falando novamente:

- “Você é o Yuri, não é?”

Essa pergunta talvez o tenha tirado do “transe”. O Sedrick se assusta. Não tinha lembranças de já terem sido apresentados um ao outro.

- “Sim... sou eu.” – pausa......................................... “Desculpa, padre, mas eu não me lembro do senhor. Como sabe meu nome?

-“Você crê em Deus, Yuri?”

- “Não” – disse-lhe com sua costumeira naturalidade no trato das coisas complexas.

- “Então porque veio procurar refúgio na casa Dele”?

-“Com todo o respeito, Padre, o senhor teria um conhaque ou um café...? De preferência ... conhaque mesmo?” – Falou com voz cansada.

- “Tenho sim. Os dois.”

- “Então eu aceito ambos”.

O Padre prontamente se levantou e escondeu o riso enquanto caminhava em direção à sacristia. Sem muita demora, retornou trazendo uma bandeja com três copos. Um café e dois conhaques. Sentou-se no mesmo local, colocou a bandeja sobre o banco, à sua direita, e voltando-se para a esquerda serviu o conhaque ao Sedrick. Pegou o outro copo e propôs um brinde:

- “Saúde?!”

Houve um instante de receio e dúvida na sedrickiana cabeça pensante. Estranho, não? Mas o Padre insistia no gesto, com um sorriso latente. “Hrum”, pensou. “Que mal há?”

Os copos tilintaram e após os goles, ambos deram uma longa gargalhada.

- “Pensei que o Padre iria beber o café e deixar as duas doses de conhaque para mim”. – Confessou a surpresa ligeiramente disfarçada

- “Não, não. Café me faz mal. Eu parei de bebê-lo” – Explicou-se simpaticamente o Padre Zanone.

Eles riram novamente. Riram como dois meninos e enquanto riam o homem da Noite Nua disse “passa então esse café pra cá”. E rindo ainda se engasgou ao tentar bebê-lo. E assim se fez ainda mais graça e foram gargalhadas sendo reverberadas pelas paredes sagradas. Se tivessem anjos ouvindo é certo que estariam rindo também. Ao final, apenas o silêncio. Muito silêncio. Ficaram os dois... ali... assim... durante um bom tempo... até que Yuri se levantou.

- “Já vou, Padre. Obrigado”

- “Você não acreditando em Deus, acredita em quê, meu filho?” – Reagiu subitamente, o sacerdote.

- “Hoje só acredito no pulsar das minhas veias*, como diz a canção, padre”.

- “Hum...sei...” – Acenando com a cabeça – “Mais alguma coisa que gostaria de falar?”

Yuri, o Sedrick, lembrou-se de sua amiga Maria Dolores. Ela morava em San Carlos, no Uruguai. Certa feita encontrou-a em Montevideo. Passaram horas conversando no Parque Rivera. Naquela época, Yuri estava emocionalmente debilitado, saindo de uma crise de melancolia ocasionado pela morte de um tio muito querido. Ainda sob os ares revoltosos de uma morte inesperada (grave acidente de trânsito), ele encontrou conforto no colo de Dolores, mulher de muita fé. “Reze, Yuri! Reze! Rezar vai trazer a sua paz de volta”. Como ele poderia rezar se não mais acreditava...? De que valeria palavras ditas ao vento, no que tange as coisas do espírito? Mas, ela insistia.... “Reze! Reze! Mesmo que não creias, reze! A prece não depende da tua crença...”. E naquela noite, após muitos anos, ele fez uma oração ao dormir.

O Padre Zanone ouviu atentamente essa história do próprio Yuri, enquanto caminhavam em direção à porta do templo. Já do lado de fora, ouviu ainda:

- “Respondendo à sua pergunta, Padre, foi por isso que eu entrei... Talvez Dolores tivesse razão. Não preciso crer para entrar na casa Dele. A casa Dele não depende da minha crença...”

E assim os dois se abraçaram:

- “Deus te abençoe, meu filho”

- “Amém, padre. Obrigado...”

E pés de Sedrick caminharam sobre a praça da Sé com um pouco menos de peso sobre os calcanhares...

Do lado oposto, meio que se escondendo, aproximou-se da igreja o bom rapaz. Certificando-se de que Yuri não o notara, Tony, o taxista, entrou. Já tendo sido coroinha do Padre Zanone, em uma paroquia da periferia, perguntou sem cerimônia:

- “E aih, Padre, como foi? Deu tudo certo? Como ele está?”


Yuri. J. Sedrick


*Noturno, Fagner

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A Dedicatória


É que fazia frio na Noite Nua.

Desceu do taxi do Tony. Chegou ao prédio da “Empresa.” Precisava de grana. Lá vai Sedrick com seu sobretudo preto desaparecer no elevador...

No escritório, Paula, a nova secretária executiva, arrumava delicadamente a sua mesa. Final de expediente é assim. Normal. Deixou o livro perto da bolsa, afinal o levaria para a casa naquele dia. Ouviu passos pelo corredor. Sons remotos que, “step by step”, foram ficando mais altos. “Que merda! Será que ainda vai chegar alguém?”. Mulheres finas, bonitas e educadas, tipo Paula, nunca falam “merda” no escritório, na frente dos colegas. Mas, pensam. E ela pensou bem alto e mais: “MERDA... CARALHO!”. É que lá vinha ele. Abriu a porta com certa intimidade e atravessou a grande sala com seu caminhar Sedrickiano. Cabelos pretos e lisos. O mesmo de sempre, não fosse a barba que ele deixara crescer nos últimos tempos. Resquícios do exílio. “Os dois “malas” que certo dia falavam sobre o Yuri” , num barzinho da Noite Nua, atônitos, olhavam a cena em silêncio. A cada passo, olhares dos funcionários da Empresa o acompanhavam. Tudo era silêncio, não fosse a sola do sapato a tiquitaquear o porcelanato.

- “Boa tarde, Senhor! Em que posso ajudá-lo?”

Sim! Era novata! Hummmm.... Não... Não sei... talvez não fosse... Ele ficara tanto tempo fora... vamos resolver isso?

- “Boa tarde...” - Olho dele percorre a mesa minuciosamente arrumada, enquanto retribui a saudação. Ao lado da bolsa mostarda, o livro... Sedrick suspende as sobrancelhas. Ela percebe que algo chamara a atenção dele. Segue-o, no olhar. Esbarra os olhos verdes no livro. Interrogação no ar. Pausa. Sem desviar os olhos do tal livro ele corta o silêncio repleto das coisas ocultas do não verbal:

- “A senhorita já leu?” ( Ao término da frase já fitava a moça).

- “Estou quase no final. E o senhor?

-“Já..........................................e o autor, a senhorita o conhece?”

- “É daqui de São Paulo, não é?”

Eureca! Esclarecido! Era novata na Empresa...

Sem expressar qualquer sentimento que viesse a causar estranheza, ele caminha até a máquina ao lado e, enquanto extrai um café "tipo forte", pede para falar com o chefe:

- "Por favor, diz ao Oscar que estou aqui."

Desta vez é a secretária que, atônita, suspende as sobrancelhas finas.

- "Hã? Não entendi, senhor?"

- "O Oscar. Seu chefe. Diz a ele que estou aqui... E pergunta se tem algo pra mim."

Ela, boca entreaberta, olha para os outros funcionários que pescoçam o diálogo. Todos se esquivam. Ela nada entende. Sem saber o que fazer, solicita um minuto ao “estranho” e entra na sala da chefia:

- “Dr. Júnior, com liçenca... me desculpe, é que tem um homem aí pedindo pra falar para o Dr. Oscar e quer saber se tem alguma coisa pra ele... olha desculpa, é que não entendi direito... não soube o que dizer.”

O Júnior olha pela porta que aberta estava e o reconhece.

- “Ele voltou...”

- “Quem voltou, Dr.?” (Coitada da secretária.... voando total....)

- “Peça para que entre. Eu converso com ele...”

O homem e seu sobretudo preto já na sala: “e aí garoto?!” - e se senta, como de costume, na poltrona à direita da mesa, apoiando-se nesta pelo cotovelo.

- “Cadê o “boss”? Está de férias?”

O Júnior, agora inquieto, caminha para a janela sem nada a dizer. Sedrick é desses que sentem as coisas que são para serem sentidas. Instintivamente olha o cenário... havia algo diferente... (engano... muitas coisas diferentes...) a disposição das coisas sobre a mesa... as canetas... o notebook... o paletó que repousava sobre a cadeira do chefe (ele nunca usaria um paletó de tons claros) sentiu uma angústia tomar-lhe o peito... O Júnior continua a mirar o nada pela janela... um a um, os funcionários entram na sala... a secretária confusa fica olhando pelo lado de fora... Sedrick leva a mão direita ao cabelo... assanha-o. O silêncio é como uma navalha a dilacerar a pele lentamente. Todos olham para Yuri que não olha para ninguém. É foda! As coisas ruins sempre chegam com o mesmo cheiro. Carol não se contém e deixa cair uma lágrima azul do olho esquerdo. Sedrick naquele exato instante olhava para o Junior. Mas, como que se tivesse os instintos altamente aguçados ( e os tinha mesmo!) ouve o som da lágrima tocando o piso. Imediatamente, volta-se para a Carol que tudo denuncia com seu choro incontido...

Ao sair da sala, seu passos pararam diante da mesa da Paula, a secretária que procurava algum entendimento naquela tarde incomum. Ao lado da bolsa “O sorriso de uma Estrela”. Ele sacou a caneta do bolso interno do sobretudo. Sem pedir licença, abriu o livro e escreveu:

“Que essa história de amor possa lhe trazer a emoção das coisas que são boas. Aproveite a vida e... cuidado! Há pedras e surpresas várias pelo caminho, como por exemplo, este autógrafo, concedido sem ser solicitado. Inusitado, inesperado como uma morte caduca, nunca antes revelada. Com dor, carinho e profunda sinceridade, Yuri J. Sedrick”

Dr. Oscar morrera exatamente 02 anos após a ida dele para o Chile e o Tony o esperava lá embaixo... Já era noite na Noite Nua...

Yuri J. Sedrick